quinta-feira, 7 de novembro de 2013

30. Sierva Maria




“A lápide saltou em pedaços ao primeiro golpe da picareta, e uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora da cripta. O mestre de obras retirou-a inteira, com a ajuda de seus operários, e quanto mais a puxavam mais comprida e abundante parecia, até que saíram os últimos fios, ainda presos a um crânio de menina. No nicho ficaram apenas uns ossinhos pequenos e dispersos, e na pedra carcomida pelo salitre só se lia um nome, sem sobrenomes. Sierva Maria De Todos Los Ángeles. Estendida no chão, a cabeleira esplêndida media vinte e dois metros e onze centímetros...”

“Ela começava a florescer em uma encruzilhada de forças contrárias. Tinha muito pouco da mãe. Do pai tinha o corpo esquálido, a timidez irremissível, a pele lívida, os olhos de um azul merencório, e o cobre puro da cabeleira radiosa. Seu modo de ser era tão misterioso que parecia uma criatura invisível. Assustada com tão estranha condição, a mãe lhe colocava uma campainha no pulso para não perder o seu rumo na penumbra da casa...”

Trechos transcritos da obra  DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS (Gabriel Garcia Marquez)



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